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Por
Alfredo Grimaldos

Gardel, o tangueiro mais flamenco

arlos Gardel é o cantor popular mais importante da história. E o diz um flamenco, apaixonado da arte de Antonio Mairena, Terremoto de Jerez e Tomás Pavón. Gardel criou o tango canção quando gravou, em 1917, “Mi noche triste (Lita)”: «Percanta que me amuraste, en lo mejor de mi vida, dejándome el alma herida y espina en el corazón…»

Até então, o tango era apenas instrumental e para dançar. El gênio nascido na cidade francesa de Toulouse e criado na portenha Buenos Aires inventou o fraseado e a dição dum gênero musical que acabaria se tornando universal. Ele o tirou do arrabalde, sem perder seu sabor mais genuíno, e o levou aos palcos do mundo inteiro.

Desde que chegou a Espanha nos anos 20 do passado século, antes de seu imparável sucesso em Paris, Gardel foi uma referência para muitos flamencos. O cantaor nascido em Andújar (Xaém) Rafael Romero (El Gallina) levava uma foto dele na carteira e não perdia ocasião para mostrá-la. Sempre dizia: «Nos ensinou a estar num palco e a posar para os retratos».

Os flamencos, que a vida inteira tinham sido influenciados por outras músicas, de forma natural, para enriquecer seu próprio patrimônio, único, tiveram no El Francesito del barrio de El Abasto uma importante referência. Quem melhor cultivou a herança de Gardel com tom flamenco foi o gaditano Chano Lobato. Numa das suas turnês pela América Latina, conheceu na Argentina a Hugo Del Carril, cantor e ator de cinema que interpretou ao próprio Gardel num filme. Chano nos contou que manteve uma boa relação com ele, quem, além da sua atividade artística, possuía um criadeiro de lontras.

Com a graça gaditana característica nele, um dia em sua casa de Sevilha, junto ao estádio do Betis, me disse: «Veja se eu gosto de Gardel, que tenho todos seus filmes há muitos anos e os conheço de cor, mas, de vez em quando, vou a El Corte Inglés e as compro outra vez. Para ver se posso encontrar alguma nova cena».

Em seu disco Que veinte años no es nada, gravado em 1980 com o violão magistral do sevilhano Manuel Domínguez, Chano, fez uma inesquecível interpretação de “Volver”, uma das obras mais imortais de Carlos, em ritmo de bulerías. Uma genialidade. Depois teve até alguns que tentaram copiá-la, inclusive para a trilha sonora de um filme, mas com pouca fortuna.

Gardel morreu há mais de oitenta anos, quando ainda não tinha completado quarenta e cinco, e deixou gravados mais de oitocentos tangos, milongas e canções crioulas, muitas dessas músicas com música escrita –de fato, assobiada- por ele mesmo.

Também, interpretou vários filmes com roteiro de Alfredo Le Pera, seu letrista dos últimos anos, que faleceu junto com ele no acidente de Medellín em junho de 1935. Carlitos, os flamencos te adoramos e te devemos muito.

Publicado em El Mundo.es https://goo.gl/D6JfDi (Atualizado: 24/06/2015) e em loquesomos.org https://goo.gl/RGDKA2