CREADORES MENCIONADOS EN ESTE ARTÍCULO
Por
Michael Lavocah

Ser DJ de tango - Parte 3: Dando forma ao baile

a parte anterior deste artigo vimos como construir uma boa série ou sequência (tanda). Esta é uma habilidade fundamental, mas o DJ experiente já passou à seguinte etapa. A questão fundamental é o que tocar a seguir, esse é o momento quando ser DJ se transforma em arte. A música é energia e emoção. Como já vimos, uma sequência não só tem uma qualidade energética, mas também uma forma. O mesmo é válido para a totalidade do baile. Através das suas escolhas musicais, o musicalizador cria uma estrutura e uma forma energética que organiza toda a milonga, tornando-a uma unidade, um todo completo e satisfatório.

A boa notícia é que este não é tarefa apenas do DJ. A próxima sequência é o encontro do DJ com a atmosfera e a energia do salão, que os dançarinos criam em parceria com o DJ. Fala-se de «saber ler el salão». Esta é uma habilidade importante e rara, mas, na minha opinião, o motivo de que seja rara é porque muitos DJ se preocupam demais da escolha da música (provavelmente porque não a conhecem o suficiente) em lugar de conseguir uma conexão com os dançarinos. O DJ deve prestar dupla atenção: em parte para o seu interior, para o seu sentimento pela música e, por outro lado, para o exterior, para a energia e a atmosfera do salão. Obter uma boa conexão com o âmbito de salão torna muito mais simples a escolha da próxima sequência. É uma questão de sensibilidade.

O que está acontecendo com a energia no salão? (Está crescendo, está decaindo, permanece igual?) E o que é que você quer fazer com ela? Continuar nesse sentido, alterá-la, ou efetuar um contraste para mudar a cor e o clima musical? O público está se sentando? Sempre existe mais de uma resposta correta. É decisão do DJ e da atmosfera e do fluxo que ele quiser criar. Às vezes, a peça musical que “desejamos” tocar a seguir pode até começar a soar na nossa cabeça, então é preciso lembrar seu título, para isso não há nada melhor que conhecer muito bem e em profundidade o universo da música do tango.

Aumentar a energia poderia significar escolher uma música que seja mais rápida, ou mais intensa. Fazer um contraste poderia ser mudar de uma música de estilo rítmico a outra mais melódica, fazer uma mudança no tempo, ou na complexidade e elaboração da interpretação.

É de muita ajuda e útil mapear o espaço musical através do qual pode-se expressar o movimento da música, considerando as qualidades da música e de seus opostos extremos, por exemplo: rápida ou lenta; simples ou complexa; dura ou branda; calma ou dramática; suave (ligada) ou cortada (staccato); mais rítmica ou mais melódica; dinâmica ou conservadora.

Mesmo que uma parte das músicas está situada num dos polos (por exemplo: rítmico ou melódico), a maior parte dela é mais equilibrada, ocupando um lugar em algum ponto ao longo dum eixo entre os dois extremos. Por exemplo, tanto D’Agostino-Vargas quanto Tanturi-Campos equilibram os elementos rítmicos e melódicos na sua música.

Por outro lado, a música sempre apresentará mais qualidades das que é possível descrever com categorias, especialmente quando começamos a considerar as diferentes emoções que o tango produz. É por isso que falamos de energia. Embora possa parecer um pouco vago, abrange todas estas qualidades, e é algo que os dançarinos sentem.

Como saber quando fizemos uma boa eleição?
Não existe nada de misterioso nisso. A boa música faz com que as pessoas queiram dançar, mas também provoca que a roda flua melhor, porque a música afeta os movimentos dos dançarinos. Observar a pista nos dá uma ideia imediata. Como está o ambiente no salão?

Reproduzir listas de músicas ou improvisar
Se a situação for previsível, como numa milonga habitual com uma assistência conhecida e frequente, o DJ pode fazer um bom trabalho com uma lista fixa, por exemplo com toda a música decidida com antecedência.

Pelo contrário, mesmo numa situação conhecida, nossos planos podem resultar alterados facilmente. O ambiente e o salão podem apresentar uma temperatura mais elevada que a normal (os dançarinos não querem música com uma energia muito alta), ou mais fria (os dançarinos precisam se aquecer). Então o DJ deve responder de acordo à pista. Primeiro deve fazer uma leitura do ambiente na milonga para, a seguir, escolher que música reproduzir na sequência.

Ser DJ, por conseguinte, não é um processo em uma única direção. É um diálogo entre o DJ e os dançarinos. A tarefa do DJ é um ato de participação, de compartilhar o amor pela música. O bom DJ raramente se frustra por não poder dançar por causa dos seus deveres como DJ. Está em contato com os dançarinos e, em certo sentido, está dançando com todos na pista.

Manter o controle sobre a música que estamos reproduzindo
Alguns dos DJs que improvisam planificam suas sequências (tandas) por escrito, com um ciclo de sequências por linha, como por exemplo:




TTVTTM
D'Agostino
Vargas
RodrÌguez
Flores
Donato Canaro
'32-'34
Firpo Di Sarli
D'Arienzo '37 Troilo '41 Canaro De Angelis
'49-'50
LaurenzBiagi


Por que fazer isso? O principal motivo é que oferece, com apenas um olhar, uma visão geral da situação onde estás na milonga. Quando eu era um DJ principiante não fazia isso, porém na medida em que fui focando mais no fluxo da energia, começou a ser útil. Como cada fila é um ciclo de 6 sequências (tandas), aproximadamente 70 minutos, tal gráfico permite ajudar a planejar com antecipação, para finalizar a uma hora determinada.

Aprender de outros DJ
A melhor forma de progredir como DJ é aprender de outros DJ. Uma possibilidade é solicitar sua opinião, mas apenas de DJ experientes e maduros. A maior parte dos pareceres e das sugestões tem a ver com o próprio gosto pessoal. Essas recomendações são basicamente inúteis.

Aprender de outros DJ também significa ouvir o que eles reproduzem. Deixe seu próprio gosto musical de lado, e observe o clima que o DJ está criando. Para dar um exemplo pessoal, meu estilo de ser DJ melhorou quando notei que as mulheres DJ que ouvi, muitas vezes, criavam uma atmosfera diferente do que os DJ homens. A música que elas passavam me parecia menos sombria.

Enquanto o DJ iniciante tende a reproduzir a mesma música em todos os lugares, o DJ experiente passa música diversa para públicos diferentes. Isso significa que você precisa ouvi-los mais de uma vez para saber, realmente, o que eles fazem.

Outra coisa para prestar atenção é que períodos ou etapas os DJ preferem. São fãs da “década de ouro” de 1935 a 1944? Talvez a sua gama musical é ainda mais estreita, e centrada no ano culminante de 1941? Ou talvez sejam um pouco mais audaciosos e passam também música mais sofisticada do final dos anos 40?

Passam alguma música dos aos 50? E se o fizessem, quanta? E que acontece com as gravações anteriores a 1935? Em Buenos Aires, não se ouve muito essa etapa, que inclui muita boa música, por exemplo, muitas valsas de Francisco Canaro com Charlo. Esta época apresenta outros climas e lhe dá ao DJ cores adicionais com os quais pintar.

Dinâmica da energia durante a milonga
Imagine, se quiser, uma breve milonga vespertina, digamos de três horas de duração. Nesta situação, não há realmente possibilidade de muita dinâmica para o baile. A maior parte do público chegará desde o início e quererá dançar a maior parte do tempo. O DJ, provavelmente, passará música com energia bastante alta do início ao fim, embora tentará, talvez, fazer da sequência final um pouco especial.

Imagine, agora, uma milonga de seis horas de duração. A situação é bem diferente. Alguns virão para ficar todo o tempo que dure a milonga, mas é bem provável que outros cheguem cedo e fossem embora também cedo, ou chegarão tarde e ficarão até bem entrada a noite. Isto cria três etapas na milonga: uma fase inicial, com aqueles que chegam cedo, começando com relativamente pouca gente; uma fase de transição, na qual a pista a miúde está lotada; e, finalmente, uma fase tardia, com os que chegam por último. Estas etapas ou fases apresentarão um ambiente bem diferenciado.

Mesmo que existam assistentes que fiquem as seis horas completas, passar música de alta energia durante o tempo todo não é uma boa ideia. O DJ, provavelmente, vai querer começar suavemente e fazer evoluir a milonga até um momento de clímax, talvez precedido durante a noite por um clímax secundário.

A primeira parte do baile: certamente este não é o momento de reproduzir as faixas mais emocionantes. Por outro lado, alguns DJ tratam esta etapa com pouco cuidado, ao passar música com a qual não lhes une um sentimento, quase como se essa parte do baile fosse uma prática (aprendizado). Na minha opinião, penso que isso é um erro. Cada instante da nossa vida é importante e merece o melhor. Acontece, simplesmente, que nesta primeira parte do baile, o que é mais apropriado é diferente do que é melhor mais tarde. Você deve pensar no ambiente que está criando tanto para os que estão chegando, quanto para os que já estão dançando. Se o público demora em chegar no começo, então será correto passar três sequências de tango seguidas, se você quiser.

A etapa central do baile: se a pista ficar muito lotada, o DJ deverá manter o controle por meio das suas seleções musicais, sem deixar que a energia diminua.

O final da noite: o DJ deve criar um efeito de encerramento satisfatório para o baile. Há muitas maneiras de fazer isso: a sequência final poderia ser muito enérgica, ou intensamente melódica, ou até reflexiva e íntima (menos comum). Se existir uma hora determinada para a finalização, você precisa planejar como atingir esse momento (quantas sequências serão passadas e de que tipo).

O propósito destas reflexões não é tanto analisar as etapas da milonga, e sim para assinalar que na maior parte das situações existe uma dinâmica para a milonga e esta precisa refletir-se na música. A música é energia. Cada sequência aporta um tipo diferente de energia no salão e na pista, segundo as suas qualidades. O DJ experiente conhece as diferentes cores e tons musicais a seu dispor, e as usa para criar o ambiente no baile.

Cada DJ controla o fluir da energia na milonga de forma diferente. Alguns constroem a energia lentamente num longo período. Outros DJ procuram contrastes rápidos, que podem chegar a ser mais excitantes. E outros DJ fazem um grande contraste com cada sequência, isso para mim é exagerado. Está muito bem passar sequências coerentes, mas o fluir das sequências também deve ser coerente.

Este tipo de análise leva a uma compreensão mais profunda daquilo que fazem os outros DJ, do que o simples observar como eles constroem uma sequência. Por sinal, pode-se copiar uma sequência de outro DJ, porém não soará igual quando for passada por outro porque o contexto musical mudou.

O nível mais alto da tarefa do DJ é levar os dançarinos por uma viagem musical. A base para atingir isso é criar confiança por meio duma boa seleção de sequências. Às vezes, chega o momento em que, como DJ, você pode sentir que tem os dançarinos na palma de sua mão. Então você sabe que é capaz de levá-los a qualquer parte, passando uma seleção de música mais ampla ou, talvez, mais rica daquilo que eles ou mesmo você tivesse pensado antes.

Níveis da tarefa do DJ: resumo
1/ sequências coerentes
2/ sequências coerentes, com transições lógicas entre elas
3/ sequências coerentes, fluxo coerente. Uma forma musical definida para toda a milonga.

Então, você quer ser um DJ de tango?
Saber qual música passar exige um profundo conhecimento e uma sensibilidade para a música de tango. Só é possível conseguir isso passando muito tempo ouvindo música, o que é uma tarefa de amor. Não existem atalhos. Estar com a música, não somente música de tango, senão com toda a boa música, aprofunda nossa sensibilidade e aumenta nossa capacidade de sentir. Penso que a motivação do DJ é fundamental e eu recomendaria a todo aquele que pretende ser DJ que reflita honestamente sobre porquê quer ser um DJ. Se você ama a música e queres compartilhar a tua sensibilidade pela música com outras pessoas, então você tem o necessário para conseguir ser um bom DJ. Estude a música, obtenha a confiança do público, e passe aquilo que sinta teu coração!