Por
Abel Palermo

egundo o historiador Juan Carlos Legido, escrever a história de Racciatti é escrever parte da história uruguaia e do tango no Uruguai, através de um período de mais de cinquenta anos. Eu diria, não apenas do tango na república irmã, mas também em ambas as margens do Rio da Prata.

A Sua orquestra expressava um tango clássico, simples, muito rítmico, de pouco valor musical, porém extremamente popular. Lembrava ao estilo de Juan D’Arienzo e sues discos eram um sucesso em vendas.

Nasceu em Chieti (Itália) e sua estreia como profissional acontece em 1938, como bandonionista de uma emissora de rádio.

No ano de 1940 ingressa na orquestra Laurenz-Casella e em 1945 é convidado a dirigir o conjunto que acompanhava o cantor Luis Alberto Fleitas, fazendo com ele nove gravações.

Com esta última experiência ganhou confiança e, em 1948, forma sua própria orquestra. Como dado interessante, um dos seus bandonionistas era o jovem Raúl Jaurena, atual diretor do New York Tango Trio, instalado há muitos anos nessa cidade.

A estreia acontece no Hotel Nogaró de Punta del Este, aristocrático balneário a 100 km de Montevidéu. Integra, também, o elenco artístico da Rádio Universal, mas em pouco tempo passa à Ràdio Sarandí, uma das mais importantes emissoras do país na época.

Suas apresentações atingem um grande sucesso e é contratado pela companhia Sondor para gravar o tango “¿Conocen estos compases?”, de Horacio Márquez e letra de Carlos Morín; do outro lado do disco, o candombe “El pregón del negrito”, composto por ele mesmo em parceria com Enrique Liste e versos de Enrique Soriano.

Realiza turnês pelo interior do Uruguai e pelo Brasil, e imitando o estilo Francisco Canaro, se envolve com o teatro. Associa-se com os autores Mario Rivero e Eduardo Casanovas para produzir várias comédias musicais para os palcos de Montevidéu. Fez várias temporadas nos teatros Artigas, 18 de Julio, Palacio Peñarol e um importante sucesso no Estádio Centenário de futebol com a comédia Barrio, luna y tamboril.

A etapa mais brilhante da sua orquestra aconteceu entre os anos 1953 e 1960, na qual brilharam suas vozes femeninas, primeiro a melhor cantora do seu país: Nina Miranda; mais tarde Olga Delgrossi, que esteve com ele por sete anos. Depois de deixar a orquestra, as duas continuaram sua carreira artística na Argentina.

A relação de cantores que passaram por sua orquestra é muito extensa. Podemos citar, entre outros, além das já mencionadas Miranda e Delgrossi, a Enrique Liste, Alfredo Cabral, Victor Ruiz, Marisa Cortez, Alfredo Rivera, Carlos Torres, Miguel Ángel Maidana, Elsa del Campo, Marcos Giral, os argentinos Luis Correa, Juan Carlos Godoy, Alfredo Dalton, Néstor Real e no final desta recordação a mais importante voz do Uruguai, o exímio Carlos Roldán, depois de ter cantado nas grandes orquestras de Osvaldo Fresedo, Francisco Canaro e Francisco Rotundo.

Donato Racciatti contribuiu à vigência do tango para dançar e popular, com muito sucesso desde o ponto de vista comercial e muito solicitado em toda América e no Japão.

Se apresentou nas principais emissoras de rádio de Buenos Aires e nos canais 7 e 11 de televisão. Foi também artista exclusivo do palco Catedral del tango e trabalhou no Cabaré Marabú, local que teve como figuras a Aníbal Troilo e Carlos Di Sarli. Fez inúmeras turnês pelo interior da Argentina, apresentando-se em quase todas as principais cidades do país.

Por último, gostaria de destacar seu trabalho como compositor prolífico e coerente com a sua ideia musical. Foi um compositor de obras simples, de melodias agradáveis, muito bem recebidas pelo público massivo que dançava cantarolando as letras. A maior parte delas carecia de um valor poético, com exceção das elaboradas pelo excelente poeta uruguaio Federico Silva. Basta lembrar seus tangos “Vencida”, “Morocho y cantor”, “Sin estrellas” e o grande sucesso que foi “Hasta siempre amor”, gravado pelo maestro Carlos Di Sarli com a voz de Horacio Casares, por Juan D'Arienzo com Jorge Valdez e por Elsa Rivas com a orquestra de Juan José Paz, entre as gravações mais lembradas. Outras obras de Racciatti: “Tu corazón”, “Queriéndote”, “Limosna de amor”, com letra de Enrique Soriano, “Murga de pibes” de Carmelo Imperio e Soriano e “Por la misma senda”, de Mario Battistella.

Morreu aos oitenta e um anos de idade, na cidade que tanto amou, tendo o reconhecimento de um povo que o venera por seu compromisso permanente com a música dançante e popular, apesar das suas limitações artísticas.