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Por
Alejandro J. Lomuto

Milonga para Fidel, Castro no repertório tangueiro

idel Castro é uma das poucas personalidades políticas não argentinas que tem em lugar na história do tango, graças a uma pouco conhecida milonga que o pianista e diretor Osvaldo Pugliese compôs em sua homenagem e gravou com sua orquestra nos inícios da década de 1960, e que mais de 50 amos depois continua sendo um mistério para os estudiosos do gênero.

Com letra de D. Arce (pseudônimo do violinista Domingo Arcidiácono), “Milonga para Fidel” foi composta, editada e gravada entre o fim de 1960 e começos de 1961, mas nunca teve circulação comercial e, ainda hoje, quase não existem menções sobre a ela em livros, biografias, antologias e estudos discográficos sobre Pugliese e o tango em geral.



Uma breve referência no sítio Terapia Tanguera (http://bit.ly/2o3Uc9y) afirma que «a partitura foi editada em 1961 e quase todos seus exemplares foram destruídos em operações feitas pela Polícia Federal», mas assegura que a última esposa de Pugliese, Lidia Elman: «possue um dos exemplares e outro está em poder de Fidel Castro».

Segundo um artigo sobre Pugliese publicado em 2010 no sítio de internet do Partido Comunista argentino, o músico lhe entregou a partitura a Castro «numa das suas viagens à ilha», ocasião em que ambos «conversaram por longas horas» porque «Fidel queria ficar com ele e ouvir mais da sua vida» apesar de que «Osvaldo não queria roubar-lhe mais tempo».

Terapia Tanguera oferece também a única reprodução da partitura impressa, na qual pode ler-se que foi editada em 1961. Porém, como parte do pé com a informação editorial ficou fora da imagem escaneada e não foi disponibilizada a imagem da capa, não fica claro se foi publicada por alguma editora de música o se foi uma edição particular.

Na Sociedade Argentina de Autores e Compositores de Música (SADAIC), a “Milonga para Fidel” foi registrada em 9 de setembro de 1975 e apenas aparece Pugliese como compositor, como se a peça fossee instrumental, segundo consta na base de obras disponível no sítio de internet da entidade, na qual, por sua vez, Arcidiácono aparece com 33 criações (em algumas como autor, noutras como compositor e noutras em ambas as funções).

Entre colecionadores e estudiosos do tango circula uma gravação (já disponível na internet) da “Milonga para Fidel” atribuída à orquestra de Pugliese com seus cantores Jorge Maciel e Alfredo Belusi, e supostamente registrada em Stentor, o selo que o próprio pianista fundou em 1960, depois de desvincular-se da Odeon.

Um estudo discográfico publicado pelo sítio El Tango y Sus Invitados localiza a “Milonga para Fidel” entre “Sueño malevo”, a última das 12 gravações que Pugliese fez na Stentor em 1960 e foram publicadas num disco de longa duração, e “Corrientes bajo cero”, a primeira que realizou na companhia Philips, em 1961.

Dada a antiga e pública adesão de Pugliese ao Partido Comunista argentino, do qual era filiado desde 1936, parece razoável supor que a “Milonga para Fidel” tenha sido composta uma vez que Castro declarasse, em 1961, o caráter marxista da revolução cubana.

O que resulta inexplicável é que mais de 50 anos depois, quando a Guerra Fria e a censura das letras de canções populares são lembranças passadas, esta milonga -cuja letra não se caracteriza pela qualidade poética e até apresenta algum evidente erro de métrica, mas como curiosidade é muito mais valiosa que dezenas de tangos que se ouvem habitualmente- continue estando hoje praticamente oculta.