Por
Agilmar Machado

O tango no Brasil

Brasil acompanha a evolução do tango, sob todas as suas formas, com o mesmo interesse e admiração de todos os países latino-americanos. Mesmo depois de 1960, com o advento do rock and roll, —e principalmente por isso— o arraigado interesse do brasileiro aumentou consideravelmente, notadamente para os que aprenderam a admirar a forma impecável de apresentação do ritmo portenho, sua melodia, sua poesia, sua dança e seus intérpretes.

Podemos afirmar, com absoluta convicção, que entre o anúncio de um espetáculo tangueiro e de uma banda de rock (até as consideravelmente famosas), em qualquer cidade de maior porte do Brasil, o primeiro terá seu efeito mais notável com seu seguidor fiel comparecendo, prestigiando a aplaudindo os que preservam as raízes plantadas por Villoldo, Arolas, Mendizábal e dezenas de outros precursores.

Evidentemente, com faixas etárias diferentes, mas o tango sempre atrairá mais platéia em quaisquer circunstâncias, além do que, para ouvir e se deliciar, e não para «apenas» assistir e «bambolear». No dia seguinte, poucos comentam um espetáculo de rock, porém, todos aludem, positivamente e por semanas, um evento de tango.

O brasileiro, admirador de tango, prossegue «descobrindo novidades» que não assistia e nem ouvia nas décadas de 40 e 50 do recém passado século. Até mesmo no extremo sul brasileiro, onde a identidade com os países do Prata é mais íntima e forte, acostumamos, naquele período de vinte anos, também chamada de «era de ouro do tango», a aplaudir Hugo Del Carril, Alberto Castillo, dentre os cantores. Já as orquestras mais em evidência, restringiam-se a Francisco Canaro (e Quinteto Pirincho) —que liderava com folga—, Aníbal Troilo, Trio Ciriaco Ortiz e muito pouco de Júlio de Caro, Osvaldo Fresedo, Rodolfo Biagi, Miguel Caló, Juan de Dios Filiberto e Alfredo De Angelis.

Não se difundiam outros tantos valores, já que, os citados, tinham estado por aqui, em excursões, ou seus discos em cera (78 rpm) eventualmente compunham as exíguas discotecas das pequenas rádios e serviços de alto-falantes da época.

Maestros e orquestras, cantores, poetas e arranjadores de valor admirável, jaziam longe do alcance dos tangueiros brasileiros. Somente recentemente —depois de 60— viemos a conhecer as belezas das execuções de Ángel D'Agostino, Francisco Rotundo, Osvaldo Pugliese, Armando Pontier e outros da mesma linha e categoria.

Cantores como Ángel Vargas, Enrique Campos, Nelly Vázquez, Alberto Marino, Alberto Podestá, Floreal Ruiz, até mesmo o grande Edmundo Rivero, etc., somente depois de 1960, quando a nostalgia tangueira levou os aficionados a procurar as remasterizações, graças às quais se recuperou a memória do tango em toda a sua plenitude, nos dias presentes.

Conhecia-se, isto sim, Libertad Lamarque, Império Argentino, em gravações individuais, além de Alberto Arenas, Enrique Lucero, Mario Alonso, Charlo, Ernesto Famá, Nelly Omar e Ángel Ramos (todos passaram pela orquestra de Canaro, cujas visitas ao Brasil eram freqüentes), Gardel, Castillo e Carril, já citados. Os discos, em sua maioria, destacavam somente as orquestras e autores. O cantor (ou estribilhista), ficava esquecido, ou em segundo plano

Assim o historiador qualifica Canaro, em relação ao Brasil: «Francisco Canaro formou e conduziu aquela que foi, e ainda é, na história do tango e dos demais ritmos platenses, a mais famosa e celebrada orquestra». Quanto à unanimidade atual, contrariamos o historiador, porém, quanto às décadas de 40 e 50, o apoiamos em gênero e grau.

Observe-se, também, que esses astros do tango freqüentemente participavam de filmes sonoros; daí, a admiração dos aficionados do tango (que tinham como principal diversão as telas dos cinemas). Os poetas mais comentados eram, disparado, Enrique Santos Discépolo e Alfredo Le Pera.

A origem do tango no Brasil acontece paralelamente ao desenvolvimento do gênero no Prata. Grandes compositores de fins do século XIX compuseram tangos: Chiquingha Gonzaga, Zequinha de Abreu e mais próximo no tempo Ernesto Nazareth.

Na primeira década do século XX ya se fazem gravações de tangos criados e interpretados por artistas brasileiro. Já na década de 20, cantores de fama nacional aderiram ao tango, incluindo-o em seus repertórios. Um dos precursores foi Francisco Alves, cognominado o «rei da voz», que possuía um apreciado programa na principal rádio brasileira da época, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ocupando o mais nobre horário dominical: 12 horas. Surgia, então, Eladir Porto, cujas gravações são hoje raríssimas. Foi a preferida dos eventos do Palácio do Catete, na época do Presidente Getúlio Vargas (primeira fase, de 1930/45).

A ela seguiu-se Dalva de Oliveira que, depois de seu afastamento do Trio de Ouro, de Herivelto Martins (seu marido), de quem se separara, passou à carreira individual, alcançando lugares invejáveis nas pesquisas. Portadora de voz privilegiada, pois alcançava tons elevadíssimos, chegou a gravar com Francisco Canaro, no Rio de Janeiro, tangos famosos como, “Tristeza marina”, “Madreselva” e “Uno”.

Outro cantor que embora teve sua carreira mais voltada aos sucessos anuais de carnaval, mas que gravou muitos tangos, foi Albertinho Fortuna. Entre seus sucessos levados aos discos LP, constam: “El día que me quieras”, “Nostalgias”, “Y todavia te quiero”, “La cumparsita”, “Mentira”, “Cuesta abajo”, “Amargura”, “Trenzas”, “Canción desesperada”, “Garúa” e “Sus ojos se cerraron”, todos em versões portuguesas. Carlos José, mais afeito a músicas portuguesas, contribuiu com alguns tangos em versão. Os poetas que mais se dedicaram às versões de tangos argentinos e uruguaios, no Brasil, foram, David Nasser, Haroldo Barbosa, Juracy Camargo, Maestro Ghiarone e Adelino Moreira. Este último, compositor inspirado e parceiro do cantor Nelson Gonçalves, fez para este versões inesquecíveis e compôs tangos brasileiros. Das versões mais conhecidas, podemos citar, “Nostalgias”, “Confissão (Confesión)”, “Mi Buenos Aires querido”, “Inveja (Envidia)”, “Voltou uma noite (Volvió uma noche)”, “El día que me quieras”, “Triste abandono (Cuesta abajo)”, “Garras”, “Mano a mano”, “Sem palavras (Sin palabras)” e “Amarras”.

Celebrizou o tango brasileiro “Carlos Gardel”, em cuja letra, de David Nasser, cantava, em sua última estrofe «...por isso enquanto houver um tango triste, um otário, um cabaré e uma guitarra, tu viverás também, Carlos Gardel».

Vive ainda, na cidade de São Paulo, uma das marcas registradas do tango, no Brasil: Carlos Lombardi, cuja perfeição interpretativa já arrancou por várias vezes, na Argentina e Uruguai.

Lombardi se aprimorou na escolha de seleto repertório de tangos, de Sebastián Piana, Gardel a Canaro, a Héctor Varela. Seus mais aplaudidos sucessos estão plantados em interpretações como, “Sueño azul”, “Fueron tres años”, “A media luz”, “Envidia”, “Un tropezón”, “Milonga sentimental” (com excelente arranjo), “Qué tarde que has venido”, “Yira yira” e “Tomo y obligo”. É um cantor completo, com jeito de galã, bossa muito próxima a Carril ou Castillo. Sua voz é forte, melodiosa e vibrante e seu poder interpretativo exemplar.

Carlos Lombardi dedicou alguns sucessos a versões brasileiras de canções e outros ritmos populares brasileiros, para o tango, em castelhano. Nessa linha vamos encontrar, “La distancia” (de Roberto e Erasmo Carlos, com versão de Buddy McCluskey) e “Dime como estás” (“Como vai você”, de Antônio Marcos, com versão de Maria Losov). Um maestro que merece especial citação aqui, já que, além de formar sua própria orquestra típica, ainda criou e manteve, enquanto viveu, duas casas de tango (em São Paulo e Rio de Janeiro) foi José Fernandes. Suas casas tinham ingressos disputados.

Com novo e promissor impulso, trazido pela saudade de músicas efetivamente inspiradas, com história e tradição, os brasileiros aderem, cada vez em maior número, ao tango. Cidades como Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, possuem hoje ambientes eminentemente tangueiros. Além disso, suas casas de espetáculos e teatros sempre superlotam quando se anunciam Una noche en Buenos Aires, com Alberto Podestá, Carlos Buono, Sandra Luna, Nora Rocca e outros; Antônio Magallanes, seu conjunto e bailarinos, ou o sempre presente Raúl Bordale, que difundiu o tango, por muitos anos, na Europa, e hoje vive definitivamente em São Paulo, brilhando com o espetáculo Esta noche... Tango!, acompanhado do bandoneonista César Cantero e seu Milongueros de 40, Roberto Abitante (piano), outro cantor, Carlos Esteves, além dos bailarinos Eduara e Corpo de Baile 4x2, já formado no Brasil.

Outra figura que atua frequentemente em programas de redes televisivas de São Paulo é um cantor argentino Alberto Cabañas.

Uma das excelentes intérpretes do tango e que participa sempre dos festivais de tango de Buenos Aires, é Mariana Avena, cantora e professora de dança (tango). É sobrinha do conhecido guitarrista Osvaldo Avena e seu pai foi bandoneonista também em Buenos Aires. Atualmente mora em Santos, onde tem uma academia de dança tangueira e está abrindo outra em São Paulo.


Agilmar Machado é jornalista e escritor brasileiro, nascido em 28/07/34, na cidade de Araranguá, Estado de Santa Catarina. Historiador com várias obras publicadas, pertence à Academia Criciumense de Letras (Cadeira 21, da qual é patrono e ocupante). Presentemente desenvolve a obra Divagações Sobre o Tango, um relato minucioso da história do tango, em português. É assíduo freqüentador de Todotango.com, onde colhe preciosos complementos para seu mais recente trabalho literário. Começou suas atividades rádio-jornalísticas em 1950, tornando-se jornalista profissional em 1969. Em 1972 já lançava seu primeiro livro. Pertence a uma prole numerosa, composta de jornalistas, escritores e advogados, daí sua vocação inegável nessas áreas.